SZY NEWS

Apontamentos, artigos, comentários, podcasts etc.

É DO INIMIGO?

Ainda no outro dia tudo era tão simples: a Leste está o russo, confiável inimigo, seja enquanto comunista empenhado ou autocrata e agressor de países vizinhos. A Oeste, o amigo que nos protege, que trouxe para a Europa a Coca Cola e duas redes em permanente expansão: a de restaurantes “fast food” e a das suas bases militares. Para as pessoas cuja principal actividade intelectual é a análise do último jogo do Benfica ou Bayern, o mundo estava, até Janeiro deste ano, solidamente dividido entre bons e maus. 

Subitamente entram em palco duas personagens que parecem de banda desenhada, uma, um velho de cabelo pintado, cara cor de laranja, a outra, o “homem mais rico do mundo”. E, de um dia para o outro, tudo se baralha. Na segunda-feira os EUA cobiçam o Canal do Panamá e o Canadá, na terça anunciam a ocupação iminente da Groenlândia. Até ao final da semana espera-se então as telas do projecto para transformar a Faixa de Gaza numa estância balnear internacional, com skyline de majestosas Trump Towers e um plano de paz na Ucrânia que vai deixar a União Europeia de joelhos a pagar a factura da energia, do armamento etc. Trump já disse o que espera em troca para a Rússia ficar com 20% da Ucrânia, para começar.

É a democracia, dirão os optimistas patológicos: mudam os governantes, eleitos pelo povo, mudam as vontades e as estratégias. Os EUA são uma grande democracia cheia de “checks and balances”, mecanismos de controlo e de contra-pesos, dizem os politólogos, ingénuos ou arregimentados, por isso vai tudo correr bem. O que vai acontecer dentro dos Estados Unidos da América ninguém sabe. Para já, o retrocesso nas leis de protecção ambiental, a desregulamentação dos mercados financeiros e o desmantelamento de direitos cívicos e da separação de poderes não auguram um novo regime muito edificante. 

A democracia nos EUA já era, há décadas, uma oligarquia em que nenhum senador ganhava eleições sem o apoio dos bilionários do Texas, da Wall Street, de Silicon Valley etc. Agora caiu a máscara. A plutocracia assume-se, sem pudor, com os três homens mais ricos do país, Musk, Bezos e Zuckerberg a manipular a opinião pública e a garantir o sucesso de Donald Trump. O novo presidente, mal tomou posse já tem senadores republicanos a quererem mudar a constituição para que possa concorrer a um terceiro mandato e eternizar-se, tal Ping na China e Putin em Moscovo, para se manter no poder até 2032, altura em que terá 86 anos (mais dez do que Brejnev quando morreu). A democracia nos EUA, podre há décadas, colapsa à vista desarmada. A morte de Trump não resolveria grande coisa. Se não for ele, será um JD Vance, Don Trump Jr. ou outro qualquer proto-autocrata a pegar no ceptro que a liga dos bilionários de Wall Street e Silicon Valley lhe entregar.   

E como reage agora a Europa? Em Davos, na Suíça, onde se reuniu a elite mundial, o anfitrião do evento dirigia-se a Trump, depois deste discursar a partir de Washington: “Senhor Presidente, não sei se consegue ouvir, mas aqui toda a gente está a aplaudir o seu discurso, que grande discurso!”. O mais que provável próximo chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, revelou, também em Davos, “de forma pragmática e em dois pontos”, a sua estratégia para enfrentar a nova administração Trump:  “Comprar mais gás e mais armas aos EUA”. 

No final do mês o ainda chanceler Olaf Scholz recordou aos EUA a inviolabilidade das fronteiras internacionais e o presidente francês anunciou que se necessário enviará soldados para defender a Groenlândia. A imagem da América, amiga e protectora, desmorona mais depressa do que Elon Musk consegue repetir saudações nazis ou instigar as extremas-direitas na Europa a derrubar os governos. O problema é que os governos democráticos têm vindo a cair há anos com a ajuda das redes sociais de Musk, Zuckerberg, pelo trabalho dos trolls do Kremlin e pelas tendências antidemocráticas, latentes nos seus eleitorados que só esperavam para serem “acordadas” por narrativas talhadas à medida e “factos alternativos”: na Hungria, Áustria, Itália, Eslováquia, Holanda etc. Se a França cair para Le Pen, em 2027, a União Europeia colapsa. Musk, Trump e Putin contam com isso. 

Desde a segunda guerra mundial que a narrativa (cinema, televisão, imprensa, revistas, livros, currículos escolares etc.) impediram que as maiorias dos eleitorados vissem os Estados Unidos como um obstáculo a uma Europa forte. Têm-no sido sempre. Quando o presidente francês Charles de Gaulle, há mais de 60 anos, quis criar uma aliança política e uma parceria militar com a Alemanha, foram os EUA que o impediram: impuseram um preâmbulo ao Tratado do Eliseu, antes deste ser ratificado pelo Bundestag, que dava clara a primazia às relações transatlânticas da Alemanha. Em privado Charles de Gaulle terá dito que, assim como estava, bem podiam “deitar o tratado no cesto dos papéis da história”. Parece que chegou a hora de rasgar o preâmbulo e de reciclar o tratado. Só faltam os mesmo os políticos europeus à altura da tarefa.

Fevereiro de 2025


Discover more from SZY NEWS

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

2 responses to “É DO INIMIGO?”

  1. Avatar de purple2aea883cce
    purple2aea883cce

    Brilhante!

    Liked by 2 people

  2. Avatar de selflesscce4d801be
    selflesscce4d801be

    Analyse muito exacta sobre o estado da democracia americana.
    Mas os US nao justificam a mediocridade das democracias europeias. O voto para partidos populistas sao a consequencia da ineficacia dos regimes de alternancia centriste depois da ww2.
    Temas como imigraçao, criminalidade, etc nao podem ser abordados pelos démocratas cada vez mais woke.
    O espaço é ocupado pelos extremos.
    Resta que nao se fala dos erros do ocidente incapazes de aproveitar da revoluçao Gorbatchev. O desprezo que sofreu a Russia durante Eltsine. Esqueceram que a subida de Hitler ao poder foi a prolongada humilhaçao e castigo do poco Alemao por Versailles.
    Enfin, na vida escolhem-se amigos mas temos que tratar com enemigos; com realismo e sem arrogancia.
    A Europa merece o desprezo dos deus inimigos. Basta ver como Alemanha e Franca falam agora de uniao, quando a primeira financiou Putin para ter gaz barato e a segunda impedia electricidade iberica de subir a europa central para vender electricidade nuclear a Belgica, Luxembourg, Holanda…

    Gostar

Deixe uma resposta para purple2aea883cce Cancelar resposta

Navegação

Sobre

Miguel Szymanski, jornalista e escritor.