Há duas semanas, a 5 de Fevereiro, a Reuters noticiava: a China está disposta a “impulsionar a cooperação” com a União Europeia para e responder aos “desafios globais”. O objectivo é claro: preencher o vazio que os novos EUA deixam por onde passam.
Enquanto os EUA e a Rússia dividem entre si a Ucrânia, a China reforça a sua entrada no jogo. É o terceiro jogador global à mesa que tem os países da UE como prémio.
Em Portugal o poder chinês já tem a posição consolidada. Beijing comprou o espaço da sua narrativa em Portugal. Os principais credores e accionistas directos de jornais, revistas e televisões privadas são empresas do sector financeiro controladas por Beijing. As principais empresas nacionais têm capitais chineses. Olhe-se para os clientes dos grandes escritórios de advogados ou para as centenas de quadros superiores da administração pública que foram nos últimos anos em viagens pagas à China. A China já tem mais poder em Portugal do que os gestores das blackrock e vanguard norte-americanas. Por isso, no primeiro mandato de Trump, o embaixador dos EUA em Portugal, exaltado como o seu presidente, exigia que e Portugal escolhesse entre a China e os EUA. Bem sabia porquê. Em Fevereiro de 2025 a opção fica clara. Mas Portugal não escolhe, é um cata-vento. Sem anéis nos dedos é uma mão estendida, um vendedor de vistos, benefícios fiscais, horas de sol, vinho e mão de obra barata.
A China comprou seguradoras, bancos – o que esses bancos controlam – ou a eléctrica portuguesa, tudo por tuta e meia e em climas negociais envoltos por suspeitas. Para gerir a EDP de acordo com os seus interesses, Beijing contratou ex-ministros de todos os partidos do ‘arco da governação’. Ao mesmo tempo chegaram a estar oito ex-ministros do PS, do PSD e do CDS/PP nos órgãos sociais da eléctrica. O único secretário de estado que tentou fazer frente a Beijing foi ‘remodelado’ pelo na altura primeiro-ministro, António Costa, que colocou no seu lugar uma marioneta de Beijing. Expatriados os lucros, ficam as migalhas que o investidor Beijing deixa em Portugal, como a Fundação da EDP e o museu novo-rico junto ao Tejo.
No início do primeiro mandato de Trump o título da revista Der Spiegel sobre a China era “Acordai!”. A China estava a posicionar-se como maior potência mundial. Agora é tarde demais para seguir o conselho de Napoleão: “A China é um gigante adormecido, deixem-no dormir. Quando acordar vai mudar o mundo”.
A pressão da China faz sentir-se até à França e à Alemanha onde deixou de rastos a indústria automóvel (Beijing assimilou durante décadas a tecnologia das fábricas europeias que produziam na China e tem agora energia a metade do preço). Há anos que diplomatas chineses assediam funcionários dirigentes de vários ministérios, políticos e governantes, em Portugal e noutros países da UE. O objectivo é que se fale “de forma positiva”, “em tom elogioso” sobre a situação na China, omitindo as sistemáticas violações dos direitos humanos (já há anos os serviços internos alemães lançaram o alerta). As guerras no Médio Oriente e na Ucrânia fizeram desaparecer todas as notícias sobre as minorias e os opositores perseguidos na China. E entalada entre dois inimigos, um antigo outro novo, a Europa tornou-se ainda mais vulnerável ao terceiro que se posiciona para “impulsionar a cooperação”.
As principais diferenças na aceitação da influência da China ou da dos EUA, na Europa e em Portugal, passavam pela avaliação do grau de democraticidade e de cumprimento dos direitos humanos num país e no outro. Com o apoio dos EUA ao genocídio e aos crimes de guerra na Palestina e com a nova administração Trump as diferenças esbatem-se.
A Rússia, os EUA e a China estão a dividir a União Europeia em sectores de influência: territórios para uns, terras raras para outros, na energia, na defesa ou nos investimentos vale tudo para extorquir riqueza. O Tiktok, o X e Facebook de Silicon Valley e os trolls de São Petersburgo encarregam-se de desestabilizar regimes e de interferir nas eleições.

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